A parceria com o NeuroRehabLab do I-MIT – entrevista com Gabriel Martins da Costa (parte 2)

GMC conta que em 2013/2014, numa das suas pesquisas, encontrou vídeos sobre o NeuroRehabLab do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira (m-iti), com demonstrações de equipamentos que lhe despertaram muito interesse.

Lembra que contactou o professor Sergi Bermúdez e que lhe disse: “temos muito interesse em ter a vossa tecnologia connosco. Estou disponível para fazer o investimento nos equipamentos que vocês acharem necessários. Gostava de ter a vossa ajuda e até quem sabe fazermos alguma investigação com a amostra de doentes que temos.”

TED Talk com Sergi Bermúdez do MeuroRehabLab do i-mit

Na sequência desse contacto, “fizemos a aquisição do equipamento, que não foi assim tão caro quanto isso. Era um computador com uma boa placa gráfica, um bom ecrã e uma câmara que captava o movimento do membro superior que depois era representado no computador.

Entretanto surgiu a necessidade da Ana Lúcia Faria fazer uma validação de metodologia de estudo, no âmbito do mestrado e do doutoramento na área da neuro-cognição, da memória e da relação com a parte cognitivo-motora.

Usou inicialmente uma pequena parte de um dos softwares (do NeuroRehabLab) para fazer a validação do estudo, com uma amostra de 12 pacientes pós-AVC.

O procedimento consistia numa bateria de testes para a memória a curto prazo e para o trabalho cognitivo-motor. Tinham de ser feitas determinadas tarefas com base na memória e no raciocínio lógico-dedutivo.

Todo o processo demorava 40 a 45 minutos, o que é bastante. Começamos a detectar que a atenção dos pacientes caia bastante a partir dos 25 minutos. Mas mesmo assim as pessoas cumpriam.”

Imagem retirada de Faria et al. (2016)

O estudo em questão (Impact of combined cognitive and motor rehabilitation in a virtual reality task: an on-going longitudinal study in the chronic phase of stroke) foi aceite, publicado e apresentado em Los Angeles na edição de 2016 da International Society for Virtual Rehabilitation e “ficou a vontade de fazermos outro estudo com uma amostra maior”.

E foi o que aconteceu, explica. “No âmbito do pós-doutoramento do Sergi Bermúdez e no doutoramento da Ana Faria iniciamos um novo estudo (Combined Cognitive-Motor Rehabilitation in Virtual Reality Improves Motor Outcomes in Chronic Stroke – A Pilot Study) com uma amostra mais robusta (cerca de 40 indivíduos). Tratava-se basicamente do mesmo conjunto de tarefas, desde contas a memória até tarefas motoras. O software é muito simples e está validado para a parte cognitiva e para a parte motora.”

Um problema que é apontado à utilização de algumas tecnologias que utilizam a RV “é que têm um tempo de setup superior ao tempo efectivo de tratamento.

Queremos ter tantos dados que acabamos por perder imensos minutos preciosos a fazer setups complexos, quando na realidade o que interessa é a função. Prefiro que haja eficácia em primeiro lugar e a eficiência vamos trabalhar à posteriori.

Eu quero que a pessoa faça movimento. Se o movimento não é perfeito, não faz mal, temos tempo para trabalhar isso. Porque, na realidade, no dia a dia também não vai fazer movimentos perfeitos. Não há movimentos perfeitos. Há o movimento daquela pessoa.

O que nos interessa é a repetição. É lógico que o movimento tem de ser realizado dentro de um grau aceitável – aí entra o papel do profissional.

Em contexto clínico de gabinete ou até de domicílio parece-me necessário manter o nível de motivação alto e ao mesmo tempo ser-se produtivo no efeito biológico que se pretende – o movimento – que é aquilo que fazemos acima de tudo.”

É apresentado o exemplo do simulador de condução de automóvel que existe no CMM Aveiro, em que “nada é medido. Nem me interessa, sinceramente. O que interessa é que seja executada a tarefa: desde entrar para o carro, sair do carro, pôr o sinto de segurança, ligar o software como se estivesse a ligar o carro e rodar o volante. É dar a simulação da actividade, é estimular o movimento.

Claro que depois cabe ao profissional avaliar se o ombro está ou não a compensar e chamar a atenção do paciente. Mas reparemos que o que queremos fazer é pôr a pessoa funcional. Estamos a falar de casos gravíssimos como um AVC, uma prótese total do ombro ou um síndrome parkinsónico. Na realidade, quer compense ou não, o paciente quer ser funcional.

Simulador automóvel – CMM

Por vezes ficamos tão presos ao perfeccionismo que esquecemos o componente de funcionalidade.

Quando entramos no campo da investigação podemos então padronizar os parâmetros, mas na clínica há que aplicar.

É claro que pode haver momentos de avaliação mais solenes em que, aí sim, o rigor é fundamental. O tempo de setup será maior e o rigor da execução da tarefa terá também de ser maior para medir se realmente houve ou não atingimento daquilo que se pretendia.”

De qualquer forma, o GMC considera que a utilização massificada deste tipo de abordagens tecnológicas não será tão breve como as empresas que os vendem querem fazer parecer.

“Acho que é, acima de tudo, uma questão de tradição e de cultura. É algo novo e, portanto, leva o seu tempo a tornar-se mainstream. A Wii fit era barata, houve muita gente a usá-la e imensas publicações que usaram esta tecnologia; mas acabou por não haver uma grande adesão em clínicas de reabilitação.

O que não quer dizer que não seja útil. É útil, claro que sim, mas as pessoas estão muito rotinadas na relação de um para um, na terapia manual, no exercício mais convencional.

Para além disso, há tanta coisa nova que acaba por haver muitos produtos substitutos ou complementares. E isso provoca um atraso na entrada da tecnologia na comunidade.

Por outro lado, acho que nós, fisioterapeutas, como não lidamos com este tipo de tecnologia durante o curso base, reagimos com algum receio a qualquer tipo de tecnologia deste género porque não temos grande conhecimento.

Acho que vai ser uma questão de tempo para a RV estar no dia a dia de uma forma ou de outra. Se não for pelo lado da doença, há de ser pelo lado da saúde.

Nos próximos dez anos a RV vai ser algo tão pragmático com pôr uns óculos e utilizar para fazer seja o que for.”

Na parte 3 da entrevista foram abordadas perspectivas sobre o futuro da fisioterapia, a tele-fisioterapia e a relação de um-para-n.

Perspectivas sobre o futuro da fisioterapia, a tele-fisioterapia e a relação de um-para-n

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